Acredito no estado eterno de mudanças.

Gosto de ver as mudanças da vida. Ontem criança, hoje adulto, amanhã idoso. Este espaço é para provocar diálogos que possam ajudar a mudar o meu jeito de olhar. E quem sabe você também entra nessa? Seja bem vindo, comente, critique, o anonimato aqui é bem vindo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É proibido criticar, é obrigado propor.


Participando de alguns movimentos pela cidade me deparo sempre com uma questão quando começamos a levantar os problemas: “Não podemos apenas criticar, temos que propor algo.” “A crítica pela crítica cai no vazio, temos que ser propositivos.” Estas frases e outras do tipo parecem como um consenso em diversos movimentos e comecei a pensar. Aliás, este texto aqui é pra pensar, não é uma conclusão.

Imagine que você é um cidadão que trabalha na construção civil, mora no Tony e trabalha no Belvedere. Por dia você gasta em torno de 2 horas para ir e outras 2 horas para voltar do trabalho. Você percebe que há algo errado nisso, há oito anos atrás você fazia o mesmo percurso em 1 hora, porque dobrou? Também há oito anos o preço da passagem era 1,65, agora é 2,65. Inconformado com a situação você reclama e ao seu lado o amigo retruca: “cara você só sabe reclamar!” Ou ainda, quando você tece um comentário do tipo: “essas obras da prefeitura não vão resolver nada e ainda atrapalham a nossa vida.” A resposta vem pronta: “uai, agora você é engenheiro? Já sabe que não vai resolver?” Ou ainda: “falou espertão, agora ensina aos engenheiros a fazer melhor.”

Nas redes sociais não é diferente, basta apresentar uma crítica que já vem alguém apontando: “este pessoal da esquerda só sabe criticar, fazer algo que é bom nada!” Ou ainda: “falar é fácil quero ver ir lá e fazer diferente.” Ou como prefere o nosso excelentíssimo Prefeito: “quem não está satisfeito que se candidate nas próximas eleições.” E a maioria nem para pra pensar um pouco nas críticas, quer mesmo é soluções, parece uma reação fruto da ansiedade generalizada que ronda o mundo: não quero saber dos problemas ou, já sei os problemas, quero ver as soluções.

Pois de tanto me apontarem assim acabei aprendendo sobre mobilidade urbana, gentrificação, privatização do espaço público, gestão de saúde e educação, parcerias público privadas, programas sociais assistencialistas e estruturantes, funcionalismo público, gestão da cultura, UMEI, APA, REIV, EIV, COMPUR, SUS, OP, UPA, BRT, PBH e um outro tanto de termos e siglas.

Só que há um detalhe, a complexidade de tudo isso impede um conhecimento mais profundo, é exatamente por isso que existem especialistas em cada área. Não é possível saber tudo sobre tudo. Óbvio. Mas e aquele cidadão que não sabe nada sobre nada, que só sente na pele, como ele pode criticar sem saber apontar soluções? Pela teoria de uma parte da população ele simplesmente não pode criticar, tem que agüentar calado.

Pensando sobre esta situação mudei de postura. Agora minhas críticas serão apenas críticas e me abstenho de propor algo. Sou um simples cidadão que sente a cidade na pele e não tenho conhecimento técnico suficiente para dizer como dever ser gerido o transporte público, mais sei que da forma como está não está certo. Também não entendo de engenharia, mas percebo que asfaltar uma via e 6 meses depois retirar todo o asfalto para colocar concreto é falta de planejamento e desperdício de dinheiro público. Não sei como gerir e manter uma escola ou um posto de saúde, mas sei que garantir 30% para as empresas terceirizadas que irão fazer esta tarefa não garante a qualidade do serviço prestado à população. Também sei que uma empreiteira começar a construir um hospital e depois abandonar a obra decretando falência, não é legal. Pior ainda quando se sabe que a mesma empreiteira foi uma das financiadoras da campanha do prefeito.

Eu não sei de nada, desconfio de muita coisa e não abro mão do meu direito de reclamar, de protestar, de apontar. Quem sabe estes apontamentos não ajudam os técnicos e especialistas a verem onde está o erro? 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Obrigado Vadias!

Volta e meia uma sensação toma conta de mim e me faz pensar: só daqui uns 20 anos entenderemos o que é isso, o tamanho disso e o que vai virar. É Praia, é Fora, é Ocupe BH, é Ocupe a Câmara, é Sarau Vira Lata, é Copac, é Câmara Transparente, é Nossa BH, é Levante da Juventude, é Dandara, Camilo Torres, Irmã Doroty e Eliana Silva, é Quem Luta Educa, são Movimentos Sociais, Políticos e Culturais que estão transformando esta cidade de uma maneira nunca vista. BH está se remoçando com idéias e atitudes. 

Realizada em diversas cidades do mundo, a Slud Walk ou Marcha das Vadias, surgiu no Canadá, depois que um policial, em palestra sobre violência contra a mulher, afirmou que são elas quem provocam a ação pois usam roupas insinuantes e que por isso são também responsáveis pelos estupros. Coitado, não sabia o que falava e nem imaginava o que esta fala causaria.

 Há muitos quilômetros de distância do Canadá, ali na Praça Rio Branco ou Praça da Rodoviária, no sábado a tarde um grupo de mulheres se reuniu para responder a este sujeito e muitos outros com quem convivem diariamente. Mulheres de todas as idades, cores e formas lutando contra todos os tipos de opressão e por respeito. Se no passado a luta foi por direitos, hoje elas vão além, exigem respeito. Respeito ao corpo, ao modo de se vestir, respeito a liberdade de ser mulher. Chega de opressão!

E nada mais poderia causar tanto espanto a tradicional família mineira que uma mulher de peitos de fora pela rua. Se fosse no carnaval ou num programa de TV, tudo bem. Mas na rua é inconcebível! Como se espantaram, como se assustaram! Corpos coloridos e com frases fortes. Marcados pela opressão, pela ditadura da estética, pelo machismo, pela falta de respeito. Os conservadores não alcançam, não entendem e criticam com o discurso vazio: liberdade tem limites!

Coitados, não se lembram que a tradição mineira é patriarcal, conservadora e opressora, e que por isso gera, de tempos em tempos, movimentos de contestação. Nossas lutas são locais e mundiais, e lutar pelo respeito às mulheres faz muito sentido por aqui. É preciso ter coragem, ter muita convicção e força para tirar a roupa em público. Não é fácil encarar olhares de desprezo e cobiça burra. Não é fácil encarar uma família tradicional, um patrão conservador ou um colega preconceituoso. Não é fácil lutar por questões que outros acreditam não fazerem sentido. Não é fácil trazer para o seio das montanhas o desejo da liberdade tão sonhada.

 Participei da Marcha das Vadias com uma fantasia: Coronel Antônio, representante da tradicional família, da moral e dos bons costumes. Vestido com um terno, um chapéu típico dos coronéis, bengala e um ferro de passar roupa, como símbolo do direito ao trabalho, doméstico. O terno foi decorado com várias frases machistas. As brincadeiras que surgiram no meio da marcha foram engraçadas e revelam o lado perverso do machismo: não é sério, é só de brincadeira. Mas aquela brincadeira ocorre seriamente no cotidiano de muitas mulheres e não podemos deixar que seja fato corriqueiro.

Ao final, na Praça da Liberdade, as frases foram arrancadas do terno e depois de despido escreveram com batom e tintas algumas frases em meu corpo. Em seguida era para eu falar algo interessante, algo que ilustrasse o meu apoio a luta das mulheres. Mas não consegui, a emoção impediu, só conseguia pensar em minhas antepassadas, Mãe, Avós e Tias, que já sofreram muito com preconceitos e discriminações simplesmente por serem mulheres.

 A minha voz embargou, por isso precisei escrever este texto. A Todas vocês mulheres de coragem, que se manifestaram neste sábado, o meu muito obrigado! Obrigado por terem compartilhado comigo momento tão importante e forte. Obrigado por terem me acolhido e brincado comigo. A questão é muito séria e a luta é longa.

Acredito que as próximas gerações, nossas filhas e filhos, poderão encontrar um mundo melhor, uma cidade melhor, porque vocês atuaram com coragem e determinação! Obrigado por ajudarem a mudar esta sociedade. E quando algum machão vier lhes censurar, lembrem-se: ele é passado, vocês são o futuro!

Quando uma mulher avança! Nenhum homem retrocede!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A cidade, o carnaval e o gueto.

Nas grandes cidades Brasileiras as classes média e alta estão aprendendo a viver em guetos. E isso não é de hoje, já faz mais de trinta anos que estão neste processo. Aqui em Belo Horizonte esta realidade é facilmente percebida na ausência desses cidadãos no espaço público. Gradativamente e sem perceber perderam o direito ao espaço público e não desconfiam que foram roubados de um direito básico. Pulam de gueto em gueto, do colégio ou trabalho para o condomínio, do condomínio para o shopping e do shopping para o clube.

A população pobre cada dia é encurralada no gueto do seu bairro, onde sair à noite é perigoso, ficar na rua é sinônimo de vadiagem e para a polícia, motivo de abordagens agressivas. No centro os moradores de rua, são constantemente roubados pelo famigerado “caminhão branco” da Prefeitura Municipal que leva os seus pertences para inviabilizar a vida nas ruas. Artesãos Nômades tem seus materiais de trabalho apreendidos em ações baseadas em um Código de Postura Municipal que fere direitos Constitucionais.

Para a Administração Municipal gente na rua é sinônimo de problema ou de lucro. Se for um pequeno grupo, espontâneo ou organizado, que se reúne em algum espaço público, logo é motivo de marginalização e acompanhamento de perto pela Fiscalização Municipal. Se for um grande evento, com patrocinadores e visibilidade na mídia, a coisa muda e passa a ser reverenciado pela Administração Municipal. A ideia é clara, gente na rua tem que render lucro, ou é sinal de problema.

Gradativamente toda a população vai perdendo o seu direito de ir e vir, de curtir a cidade, de se encontrar na esquina ou na praça do bairro, de conversar, de brincar na rua. Para isso há uma justificativa perfeita: a violência. A violência está em todos os lugares, principalmente nas ruas, sendo assim, melhor que não tenha nenhum cidadão nas ruas. Caso haja, deve ser abordado, identificado e de preferência orientado a ir para a casa. Ainda não perceberam que gente na rua é sinal de segurança, um cuida do outro, e quando tem gente vendo fica mais difícil para a violência acontecer. Aliás, é seguindo esta lógica que se instalam câmeras nas ruas, saem às pessoas e entram as câmeras.

Esquecem os administradores municipais que é da natureza do homem se levantar quando é tolhido de seus direitos. Estamos de pé! Prontos para reivindicar o que é um direito nosso. Queremos as ruas de volta. Queremos o direito de poder nos encontrar em nossas praças abandonadas. Queremos o direito de desligar a televisão e ir jogar bola na hora da novela. Queremos poder tocar violão na praça e encontrar os amigos sem precisar ir para um espaço privado.

Blocos de carnaval independentes, que não têm patrocinadores ou políticos em suas organizações, são considerados um problema. Grandes blocos com patrocinadores ou políticos organizando tem, além de financiamento, toda a publicidade da Prefeitura a disposição. Esta diferença mostra o quanto a administração municipal se encontra distante da população.

Não queremos grandes blocos, não queremos cercas, nem regras absurdas para sair às ruas. Queremos de volta a nossa liberdade, o nosso direito de folia sem repressão e sem criminalização. O povo nas ruas é sinal de festa, de alegria e de revolução. Se não entendem que não queremos viver em guetos, que cercas, alarmes e câmeras são apenas motivos de opressão e não resolvem o problema da violência, demonstraremos nas ruas.

Nossa alegria é contagiante, nossa disposição é de quem tem samba no pé e fogo no corpo. Não, Sr. Prefeito, não aceitamos a sua cooptação de nossa festa. O Carnaval de Rua é do povo e não da Belotur. Suas estratégias de controle e opressão nos mostra que estamos no caminho certo. Queremos nossas ruas cheias de gente, brincando, se divertindo e celebrando a vida. Porque sabemos que só no encontro das ruas, só quando estamos diante do outro, do diferente, é que podemos crescer e aprender a ser cidadão. No gueto, Sr. Prefeito, aprende-se o medo, a angustia e a depressão, tão comuns neste povo que está sendo enjaulado em casas, escolas, shoppings e condomínios fechados.

Abram alas, o Carnaval de Rua vai tomar a cidade, vai contaminar a sua alma e quando estiver desanimado, solte corpo, entre na dança, porque quem fica parado vai acabar aprisionado.

Em tempo: A lei geral da FIFA, que também será aplicada em nossa capital, prevê que para as festas de rua só poderemos nos encontrar nas Fan Fest, espaços cercados e com segurança particular. Já foram montadas arenas desse tipo na Praça da Estação e na Praça JK. Um teste para a Copa, onde todos os bares deverão ser fechados em dias de jogos e só poderemos nos reunir nestes espaços cercados.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

REDE DE APOIO E SOLIDARIEDADE ABRAÇA A COMUNIDADE DANDARA

Acabei de receber este email e me sinto na obrigação de compartilhar com mais gente. Tenho orgulho de ter participado da mobilização no último domingo, dia 16/10. Outras virão e é muito importante que mais gente se una a luta. Amigos que foram pela primeira vez a Dandara se impressionaram com a organização e estrutura do lugar. Uma frase recorrente: "chorei de emoção."
Fotos aqui.

“A gente tem muita fé e coragem. A gente não está só. Quanto mais eles nos ignoram, mais aparece gente para nos apoiar.”
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro[1]

Desde que a Comunidade Dandara, no bairro Céu Azul, em Belo Horizonte, MG, recebeu a notícia de que seria expedido o mandado de despejo no processo de reintegração de posse que tramita na 20ª vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, tem sido impressionante o grande número de manifestações de apoio e solidariedade à Comunidade no sentido de discordância com a decisão judicial e com a forma como o poder público do Estado de Minas tem tratado as 1.000 famílias que há 2,6 anos vivem na Dandara.
Pela internet estão sendo realizadas diversas campanhas de apoio a Dandara, inclusive internacional. De diversos cantos de mundo, grupos e pessoas têm encaminhado à Comunidade Dandara recados de apoio à Comunidade e contrários ao despejo. Na comunidade tem sido grande o número de visitantes, diariamente, presentes e apoiando as famílias. Um grupo de jovens apoiadores, inclusive, desde que soube da notícia do despejo, veio acampar e morar com as famílias de Dandara.
No último final de semana, 12 de outubro, dia das crianças, durante todo o dia, houve festa na Comunidade, com a presença de dezenas de apoiadores que, de muitas maneiras, contribuíram e se solidarizaram com as crianças que são centenas. Foi um dia de muita festa e de muito gesto solidário. “Aqui na Dandara, somos felizes. Brincamos, vamos à escola, participamos da comunidade e lutamos. Estamos aprendendo a lutar também com os sem terrinhas do MST”, dizem muitas crianças dandarenses.
Ontem, dia 16 de outubro, centenas de pessoas de diversos cantos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo, vieram abraçar a Comunidade Dandara. O dia começou animado, pela manhã com as famílias dandarenses enfeitando a comunidade e preparando para receber as visitas. Foi uma verdadeira primavera de solidariedade.
Às 13:00h, as pessoas foram chegando, trazendo faixas de apoio e muito calor humano. Foram diversas entidades, movimentos sociais e populares, religiosos/as, faculdades e universidades, sindicatos, professores, padres, igrejas diversas, estudantes, comunidades vizinhas, artistas e famílias. Também se fizeram presentes diversas instituições através de telefonemas e emails, justificando a ausência física, mas afirmando o apoio à luta das famílias.
A Comunidade Dandara, com bandeiras vermelhas asteadas sobre todas as casas, sinalizava a resistência, o sangue aguerrido de sua gente que insiste em dizer que sua luta é justa, legítima, urgente e necessária. Insiste ainda em dizer, sobretudo, que não pode sair de Dandara porque não tem para onde ir, porque o lugar, chamado Dandara é uma conquista, tem sido libertação, tornou-se um projeto de vida para milhares de pessoas, sobretudo para centenas crianças. O sonho de Dandara não pode ser abortado! Após a morte de duas crianças na Dandara – Beatriz e Estefânia -, que morreram carbonizadas em um barraco de 4 metros quadrados, volta e meia o arco-íris vem visitar a Comunidade acordando em todos a certeza de que o Deus da vida vibra de alegria com a luta de Dandara.
Com músicas, falas dos apoiadores e muita animação, o grande abraço aconteceu, inclusive com Ato Ecumênico para pedir a bênção divina e a sua proteção. Quinhentas crianças do MST, os sem terrinha, marcaram presença. Recitaram poesia para Dandara, cantaram músicas e deram gritos de luta, solidários com as crianças e as famílias de Dandara. “Mexeu com Dandara, mexeu com os sem terrinhas e com o MST”, gritavam todos. Uma onda de energia revolucionária contagiava a todos.
De maneira organizada e em marcha, nove moradores de Dandara, cada um com uma grande bandeira vermelha, foi seguindo para um determinado ponto, dentro da comunidade, acompanhados de centenas de apoiadores e moradores. Em seguida, ao som de foguetes, com gritos e hinos, o povo foi se espalhando, dando as mãos e abraçando a Comunidade Dandara. Um helicóptero de amigos parceiros sobrevoou a comunidade durante o ABRAÇO A DANDARA e registrou a beleza profética e política do que estava acontecendo.
A comunidade Dandara possui um território de 330 mil metros quadrados (= 33 hectares). Entorno de toda a comunidade estavam cerca de 3 mil pessoas de mãos dadas, simbolicamente e concretamente, dizendo para as autoridades que não concordam com a decisão que decretou o despejo das 1.000 famílias de Dandara e que esta decisão não pode ser cumprida.
Este abraço veio confirmar a força que tem o povo de Dandara. Força visível na luta de cada dia, na organização interna, na convicção de seus direitos e no imenso apoio que a comunidade tem da sociedade. Apoio em Belo Horizonte, em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. Tem razão quando diz Dona Maria, moradora de Dandara. “A gente tem muita fé e coragem. A gente não está só. Quanto mais eles nos ignoram, mais aparece gente para nos apoiar”.
Parabéns, comunidade Dandara! Vocês estão construindo história verdadeira, construindo outro mundo possível, com ternura e resistência. Belo Horizonte, 17 de outubro de 2011.

[1] Advogada popular. Integrante da Rede de Apoio e Solidariedade da Comunidade Dandara.

Fotos aqui:

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um relato da Itália

Recebi este relato por e-mail e me senti na obrigação de compartilha-lo. É importante perceber como as coisas tem mudado e como podemos fazer parte dessa mudança. Só a mobilização social é capaz de reverter o quadro de corrupção e ingerência dos nossos governantes.
Ei você ai parado, também é explorado!

"Aos amig@s brasileir@s,

o que aconteceu nos últimos meses na Italia foi realmente extraordinario!

Há alguns anos o nosso governo super corrupto de Berlusconi fez uma lei para privatizar todos os serviços hídricos, de transporte publico local e de gestão do lixo. Essa lei continua o percurso que os governos de direita levam para a frente há muito anos, querendo privatizar os serviços públicos.

Então o ano passado, em cada cidade começou uma mobilização popular e recolhemos assinaturas para pedir um referendum (plebiscito popular) contra essa lei e contra a mercantilização da agua. Em 3 meses recolhemos mais de 1.400.000 assinaturas, o numero mais alto na historia da Itália, e finalmente 12 e 13 de junho 2011 o povo todo foi chamado a votar para decidir sobre privatização da agua, sobre energia nuclear, e sobre privilegio do chefe de governo e ministros em poder não ser chamados nas aulas de tribunal para julgamentos.

Toda essa luta foi levada a frente por conta dos movimentos sociais, dos sindicatos, dos voluntários da sociedade civil, o Fórum dos movimentos pela agua cresceu muito e jà tem comité de agua em cada cidade da Itália. Os partidos políticos nos obstaculavam ou gozavam de nos. Até o maior partido da “esquerda” italiana (que já levou para a frente a privatização nos anos passado) não ajudou, mas sò falava contra de nos.

A mídia, escrava do poder, nunca falava dos assuntos, tivemos que não se organizar e fazer nossa campanha de informação através de internet, nas ruas, nos povoados, com encontros, eventos, teatro, foi um esforço imenso, mas que nos fez encontrar as pessoas de uma maneira direta, pessoal. Os voluntários cresciam de numero, no ultimo mês a mobilização crescia e cada um fazia sua parte para repassar as informações.

Vocês tem que saber que aqui na Itália o referendum tem validade somente se vai votar mais de 50% da população e que aqui na Itália votar não é obrigação. Nos últimos 16 anos nenhum referendum tinha conseguido chegar a ser valido, também porque a pululação esta muito enjoada da politica e muitas pessoas não votam mais.

Mas vamos voltar a o que aconteceu no ultimo mês, porque para nos isso tem o sabor de um milagre. A sociedade civil, que parecia adormecida, começou a se mobilizar cada dia mais, em favor da agua publica, contra a energia nuclear e para una justiça igual para todos.

Se mobilizaram os jovens que usam internet, todos se unimos, pessoas de diferentes ideas politicas, de todos os lados e experiencias, unidos, porque a agua não tem color, a agua é vida para todos.

Um mês antes das votações começou se perceber que o consenso popular estava crescendo e alguns partidos mudaram suas falações, e começaram apoiar a luta. Essa mudança foi mais uma vez o tentativo da mala politica de se apropriar de uma luta que estava se prospectando vitoriosa.

Mesmo assim nos estávamos com medo de não conseguir chegar a 50%, porque como já disse, a mídia e o governo estavam todos contra nos, fazendo um escandaloso boicote da informação e convidando o povo para não ir votar.

Mas chegou o dia que vai entrar na historia do nosso país. Dia 13 e 14 de junho a população começou encher as urnas já de manha cedo, jovens e velhinhos, famílias, até doentes e estudantes de outras cidades que pediam para votar, maior parte da igreja apoiou a luta, missionários fizeram vigília de oração, papa Bendito falou contra energia nuclear, os artistas faziam shows gratuitos para mobilizar, os bares prometiam bebidas para quem ia fazer seu dever de votar, cada um inventava uma coisa para convencer os outros.

E afinal vencemos: 57% dos italianos foram as urnas , 95% deles votou para cancelar as leis injustas do governo. A noite as praças se encheram de pessoas fazendo festa, pela primeira vez cheias de jovens animados, sorrisos, abraços, a sensação que as coisas a partir de hoje vão mudar para melhor.

Foi maravilhoso descobrir que não precisamos mais da mídia tradicional, a liberdade de internet substituiu a escravidão da televisão, foi maravilhoso descobrir que os jovens não estão todos anestesiados e desinteressados, o enjôo não é devido à politica, mas aos políticos! Quando a politica é feita pelo povo, falando de assuntos concretos como agua, saúde, segurança, o povo entende e se mobiliza.

Tem um vento novo soprando na Itália, um ar limpo e fresco como uma cachoeira de agua transparente.

Nestes anos ganhamos força com as lutas vitoriosas de alguns povos da América Latina, hoje estamos felizes de oferecer nossa vitoria a todos os povos que ainda lutam pelo direito à agua. A agua é nossa mãe, nessa irmandade avançamos juntos para um mundo melhor.

Abraços

Silvia Parodi - comité “Agua Publica” de Genova – Italia."

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Movimentos sociais ocupam prédio do IPSEMG.

Na manhã da segunda-feira, 02 de maio, militantes de diversos movimentos sociais, liderados pelas Brigadas Populares e com a participação do Comitê Popular dos Atingidos Pela Copa 2014, ocuparam o prédio do IPSEMG na Praça da Liberdade.


A ação foi construída para denunciar os desmandos do Governo Estadual e divulgar a licitação fraudulenta realizada recentemente e atualmente investigada pelo Ministério Público. Na licitação, que só teve um concorrente, a rede de hotéis fasano conquistou o direito de explorar o prédio por 35 anos pagando 15 mil reais mensais. O prédio ainda tem alguns funcionários trabalhando, mas a grande maioria já foi transferida para a cidade administrativa.

Com a licitação, o prédio que é público e faz parte do conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade, será transformado em um hotel de altíssimo luxo, administrado pela iniciativa privada, lesando o povo em prol de particulares. Por isso é importante que a comunidade se mobilize e não admita tal arbitrariedade. O Ministério Público esta estudando o caso e avaliando as irregularidades da licitação. Nessa hora é importante a pressão popular! Estas informações saíram precariamente na mídia e logo foram abafadas. O Senador Aécio é amigo íntimo dos Fasano e segundo indícios, trabalhou para manipular a licitação.

Esta ação é apenas o início do que vem por ai. A Comunidade Camillo Torres está em ameaça de despejo em uma ação de reintegração de uma posse, que nunca existiu. A articulação entre o judiciário e o executivo impediu qualquer tentativa de se manter a ocupação, que é legítima e organizada em terreno público que não era usado. Misteriosamente este terreno passou a ser de posse da Victor Pneus, empresa que nunca utilizou a área.

As Comunidades Dandara e Irmã Doroty também estão em situação semelhante. Além da Mata dos Wernek, da Mata do Planalto e outros prédios público que podem do dia para a noite serem passados para a iniciativa privada. Não podemos ficar de braços cruzados enquanto o patrimônio público, que é de todos nós, é doado para os amigos dos governantes. E todas as ações são justificadas como obras para a Copa 2014. Aproveitando a paixão do Brasileiro pelo futebol nossos governantes roubam os bens públicos!

Funcionários terceirizados chegaram a tentar impedir a ação, pois estavam preocupados em realizar a mudança para a cidade administrativa. Depois de acalmá-los e garantir que o movimento não interferiria em suas atividades normais, restaram apenas caras feias, de quem vive à custa de favores no emprego público.

Funcionários Públicos concursados, soldados, cabos e sargentos da Polícia Militar foram solidários com os manifestantes ao saberem da legítima reivindicação. Todos foram unânimes ao reclamar da ingerência do Governo Estadual. A ocupação e a desocupação aconteceram de forma ordeira e não causou nenhum dano ao patrimônio público. Agradecemos a compreensão e apoio que recebemos de diferentes cidadãos que durante a manifestação também demonstraram a sua indignação.
Deputados do Bloco Minas sem Censura apresentaram sua solidariedade a manifestação.
Eles também estão pressionando o Ministério Público para investigar a licitação.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quanto vale o seu trabalho?

Esta pergunta tem resposta simples para a maioria das pessoas. Basta pegar o valor que recebe no final do mês, dividir pelas horas trabalhadas e terão a resposta. Para alguns profissionais a resposta já está na ponta da língua e são contratados por horas, ou por consultas, com valores definidos e claros.

Um grupo de profissionais sofre com esta pergunta. Sem sindicato forte, sem representatividade ou histórico de mobilização, algumas classes são reféns destes valores. Aliado a estas questões está à subjetividade de alguns trabalhos, que podem demorar horas ou minutos para serem feitos. Os profissionais que trabalham com fotografia, tratamento de imagem, edição, criação de textos, produção de moda, maquiagem e várias outras atividades, sofrem com esta pergunta: quanto vale o seu trabalho?

Sem um sindicato, sem uma união entre os profissionais e sem uma tabela de custos, os preços variam ao léu e muitas vezes de acordo com o relacionamento entre contratante e contratado. Sem regras e sem medidas certas os dois lados ficam sem ter como avaliar o custo. E ai a coisa começa a ficar perversa. O contratante tem argumentos fortes para diminuir o valor do trabalho alheio: outro pode fazer por menos, o mercado está apertado, faz um desconto hoje e amanhã te contrato de novo, somos amigos, se me fizer um preço camarada te indico para outros serviços. A enxurrada de argumentos para justificar um preço baixo daria para encher uma página.

Os profissionais se vêm em um beco sem saída: ou fazem um trabalho pelo custo menor e esperam outros resultados, ou ficam sem trabalhar. Ficar sem trabalhar é muito complicado e a maioria acaba aceitando qualquer valor. Ou até valor algum. Quando o contratante é uma grande empresa ou um profissional já reconhecido, ele tem um argumento mais forte ainda: olha, seu nome vai aparecer junto ao nosso – do sujeito ou da empresa – isso vai lhe abrir muitas portas e lhe render muitos trabalhos. Com este argumento o contratante pede o trabalho de graça. Às vezes nem é para o sujeito, mas para a empresa que ele trabalha. Assim, temos em BH revistas, jornais, agências de publicidade, entre outros, que não remuneram alguns profissionais que contratam temporariamente. E o pior, gente que trabalha de graça e acha que está no lucro.

A questão é tão ampla que abrange pessoalidades, às vezes questões de auto-estima. Preciso mostrar o meu trabalho! Preciso ser visto! Preciso ser reconhecido! E assim, no desespero ou na falta de outra saída, o sujeito trabalha de graça. E aquele trabalho que viria depois que o nome dele aparecesse junto com o grande nome ou a grande empresa, nunca acontece. Ou pior, nem o nome dele aparece, esqueceram.

Neste ponto acho que muitos já se reconheceram, já lembraram de algumas vezes que trabalharam por pouco, ou por um pagamento imaginário que nunca ocorreu. Então, meu amigo, é hora de acordar. Vamos fazer um acordo de ética e dignidade com nós mesmos, com a nossa profissão e com o mercado que fazemos parte! Da próxima vez que aquela revista ou aquela agência de publicidade lhe pedir uma foto, um texto, ou uma maquiagem de graça, seja gentil e explique: olha, de graça não posso. É contra a minha dignidade e desrespeita a profissão que abracei com carinho.

Vamos trocar mais idéias sobre o assunto? Repasse este texto, comente com os amigos e use os comentários aqui – pode ser anônimo – acredito que abrir esta discussão é saudável para todos nós, profissionais autônomos, não sindicalizados e que atendemos as demandas de comunicação e imagem de grande parte da sociedade. O processo é lento, mas é durante que as coisas se descobrem.