Acredito no estado eterno de mudanças.

Gosto de ver as mudanças da vida. Ontem criança, hoje adulto, amanhã idoso. Este espaço é para provocar diálogos que possam ajudar a mudar o meu jeito de olhar. E quem sabe você também entra nessa? Seja bem vindo, comente, critique, o anonimato aqui é bem vindo.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Estão cerceando nossas paixões!



O carnaval passou feito um arrastão pelas ruas da cidade, foram mais de 40 blocos com diferentes inspirações. E BH mostrou a sua cara: diversa, multicolorida e liberta! Teve bloco só de marchinha, outros com inspiração no maracatu, um outro de afoxé, outro de axé, mais um de marchinha, outro de samba carioca e por ai a fora. Para todos os gostos e disposições, teve bloco pela manhã, a tarde e a noite, em endereços e itinerários igualmente diversos. Blocos temáticos, performáticos e muito divertidos. Estamos juntos e misturados, compartilhando energia gracinha!

Por outro lado a PBH insiste em andar na contra-mão. Cercas foram colocadas em praças, passeios e canteiros. Aliás, uma casa de show pode cercar um passeio público? Será que a fiscalização permite cercas em passeios para fazer área de fumante? Para priorar, em diversas praças não havia banheiros suficientes, em outras a fiscalização espantou os ambulantes e os foliões passaram sede. Aliás, isso de faltar água em eventos públicos em BH esta virando tendência. Proibem o ambulante e não oferecem outra opção para o cidadão comprar uma água.

Por falar em água, viram no mineirão? Pois é, mas pelo menos no Indepêndencia tem. Mas quantas pessoas cabem no Independência? Tirando os pontos cegos. Umas 30 mil? 20 mil? Uma pena, já vi o mineirão com mais de 80 mil atleticanos, onde será que vão estes outros 60 mil em dia de jogo? Será que a torcida está diminuindo? Ou foram pular carnaval e esqueceram do jogo? Bem, acho que não, o estádio estava lotado, com gente do lado de fora comprando ingresso de cambista por qualquer preço, e deve ter dado muito lucro. E para distrair os torcedores, quem sabe assim eles não pensam no preço do ingresso e no pouco que são, fizeram uma brincadeira distrindo copos d’água com tampinha: aqui tem água.

A jogada de marketig foi sensacional, ao mesmo tempo que zoa com o time rival, distrai os torcedores para que nem se lembrem que estão em um estádio que cabe menos da metade do que se usava antes. Parece que admitiram que a casa do Galo deve ser mesmo menor que a do Cruzeiro. Caiu no Horto tá morto! Achei que para a Libertadores mereciam mais, mais lugares, mais público, acesso mais fácil e muito mais conforto. Mas o que importa não é o acesso ao estádio, o conforto do torcedor, o jogo ou os craques, o que importa é o lucro.

E porque estou misturando futebol e carnaval? Para chamar a sua atenção para o seguinte: enquanto você se distrai, lhe roubam! O direito de ir e vir, com cercas; o direito a assistir ao seu time do coração, limitando ingressos, num estádio pequeno. Proibem ambulantes e ficamos sem água, cerveja e o bom e velho tropeirão. Por falar nisso, ri muito de nossos cronistas esportivos falando da volta do tropeirão. Um tropeirão falsificado e sem graça, do jeito que estão ficando os nossos estádios, que também não podem ter faixas e bandeiras.

E não acabou por ai, no carnaval não temos ônibus na cidade. Linhas com quadro de horários reduzidos e algumas nem funcionando. E na televisão a campanha: se for beber não dirija. E penso com meus botões: se for em BH vai ter que andar a pé! Taxi só com muita paciência é possível conseguir.

Enquanto os blocos tomavam as ruas com mil, duas mil pessoas, na praça da estação foi organizado o Carnaval oficial da PBH, para mais de 30 mil. Um fiasco tão grande que os meios de comunicação nem comentaram. Uma festa do jeito que eles sabem organizar, sem identidade com a cidade, cercada com grades altas, catracas e ingressos antecipados. A justificativa é a segurança. Uai, então os blocos que não têm cercas são inseguros? Bem, eu não vi um tumulto, nada, nem uma confusão e olha que andei um bocado por esta cidade. Ou será que os blocos por concentrarem menos pessoas, em locais abertos e de fácil circulação, são mais seguros que a festa organizada pela PBH? Desconfiou muito.

E ai vem outro detalhe, o nosso carnaval não é organizado pela Fundação Municipal de Cultura. O carnaval em BH é organizado pela Belotur e mais especificamente pela Gerência de Eventos e Novos Negócios. Imagine, fazemos a festa e a PBH quer lucrar com ela! Quer transformá-la em “evento mínimo” ou “evento de pequeno porte”, querem CNPJ, impostos, cercas e ordem, muita ordem. Mas carnaval se faz no improviso, sem burocracias e mandatos. Aliás, temos um Artigo na Constituição que garante isso! O 5º Artigo em sua XVI linha prevê: “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente.”

E é nessa que Lacerda e seus amigos se embolam. A Lei Municipal nº 10.277 e o Decreto nº 14.589, ambos de 27 de setembro de 2011, determinam limitações para manifestações públicas, tentam enquadra-las como evento e não servem para absolutamente nada, por serem inconstitucionais. Pense bem, o prefeito fez uma Lei Municipal que não tem validade Constitucional! Como pode?

O que percebo meus amigos, é que eles não colaboram para uma festa melhor, não atuam em diálogo com a população, não conseguem entender a folia, não é por má vontade, é pura incompetência mesmo. Se fossem um pouco mais capacitados, se entendessem de administração pública e dialogassem com a população, BH teria uma festa muito mais confortável, ou pelo menos com mais banheiros públicos e vendedores ambulantes.



Ps1. Sr. Mauro Werkena, Presidente da Belotur, gostaria de lembrá-lo que a maioria dos blocos não recebeu um tostão da PBH ou Belotur. E em muitos nem os banheiros e o diálogo com a BHTrans foi feito, como o prometido! Na reunião convocada duas semanas antes do carnaval, numa demonstração de desorganização e incompetência, o Sr. fez um discurso equivocado e saiu sem escutar os representantes de blocos. Se quer novas reuniões, se prepare, pois é visível o seu total desconhecimento de causa para a função.

Ps2. Senhores administradores municipais, carnaval é festa popular, é cultura na rua e não novos negócios! Não é isso que queremos! Não queremos empresas, não queremos grandes eventos, não queremos trios elétricos! Que tal passar a administração do Carnaval de BH para a Fundação Municipal de Cultura! Vamos ser pelo menos coerentes?!

Ps3. Senhores, um outro convite: Vamos pensar uma forma de liberar o trabalho dos ambulantes, pode ser cadastrando, fornecendo novas caixas padronizadas, de preferência de plástico e de fácil limpeza, ou algo do tipo. Fornecer água para as pessoas não pode ser um caso de polícia, mas de saúde pública.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Carta de apresentação para filiação ao PSOL.



 “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio." Groucho Marx*

Até bem pouco tempo esta frase resumia o meu pensamento sobre as instituições em geral: igrejas, sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos, etc...
Já participei de Grêmios Estudantis e hoje participo do Fora Lacerda e do COPAC – Comitê Popular dos Atingidos pela Copa. Nos Grêmios vivenciei situações onde a luta dos estudantes era suplantada por lutas partidárias ou ideológicas. Acho que por isso fiquei tão arredio.

No COPAC e no Fora Lacerda experimento formas de participação diferentes, sem a formalidade das instituições tradicionais, com a liberdade de ação e fala aberta. São instituições horizontais, transparentes, sem lideres, sem hierarquia e abertas a todos os cidadãos que desejam participar e entrar nas lutas. Aproveito e faço o convite a quem desejar conhecer e participar dos movimentos. Seja um voluntário da Copa, ajude o COPAC a acompanhar e denunciar os abusos para a realização dos jogos. Seja um voluntário da sua cidade, ajude o Fora Lacerda a fiscalizar a administração municipal e denunciar seus abusos.

Nesse emaranhado de lutas conheci militantes de diversos partidos, principalmente: PSOL, PSTU, PCB, PCR e PT. Cidadãos engajados e obstinados em construir uma outra sociedade, cidadãos que se doam para o coletivo, mesmo sem serem reconhecidos assim. Cidadãos que defende suas bandeiras com consciência e abnegação. Cidadãos que aprendi a admirar e respeitar, mesmo tendo percepções diferentes.

E no meio desse emaranhado fiz amizades, muitas, diversas. Encontrei pares de pensamento e ação, acabei por me envolver com eles além das ideias. Acredito sobre tudo nas relações movidas pelo afeto. Relações que transcendem entendimentos racionais e se fortalecem na abstração das lutas por um mundo melhor.

Neste tempo comecei a pensar em me filiar ao PSOL, um partido que já me identificava e que passei a me identificar com seus membros. Afeiçoei-me primeiro as ideias e depois as pessoas. E foi isso que me fez filiar, o gosto, mais do que o ideal. Porque eu luto com prazer e satisfação, com alegria e empolgação. É que faço movido pelo coração, é ele quem procura na razão os melhores caminhos.

No entanto, planejava me filiar daqui há alguns meses, queria conhecer melhor o partido antes. Mas algumas coisas me fizeram mudar de opinião. Primeiro foi uma revoada de tucanos disfarçados de periquitos que rondaram o partido na época de encerramento das filiações em tempo hábil para a eleição de 2012. Depois de espantada a revoada de aves estranhas ao ninho fui entendendo o que se passava. No segundo turno das eleições de 2012 vieram as polêmicas com os candidatos do PSOL que estariam recebendo dinheiro de empresas ou apoio de políticos, já reconhecidos pelos seus desacertos.

Estes dois fatos, principalmente o último, foram comentados em diversos meios e principalmente por outros partidos de esquerda, que viam o PSOL caindo para o lado onde o PT se perdeu, alianças e financiamentos. E foi nessa que pensei: meus amigos precisam da minha ajuda. Se o PSOL está em risco, se aves de rapina querem ocupar este ninho é hora de dar mais força, é hora de fortificar a luta e mostrar a nossa postura.

E é por isso meus amigos, que estou aqui, para travar as lutas mais difíceis que possam surgir e poder manter no rumo as ideias e posturas que compartilhamos. Que o sol brilhe para todos!
"Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres."
Ah e quero estudar mais Rosa de Luxemburgo. Obrigado!

*Quando escrevi este texto para me apresentar ao PSOL, no início de dezembro, pesquisei sobre esta citação. Várias fontes na internet citam o Groucho, mas a frase não é dele é do Freud e quem afirma isso é o Woody Hallen, neste vídeo que o Pedro Raidan me passou: https://www.youtube.com/watch?v=-t4m_yzdMzU
Fiquei muito feliz com este acontecimento, demonstrou como a nossa união pode ser mais certeira que uma ação solitária. Obrigado.  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


As mentiras e as pernas curtas do PulsarBH.

Outro dia me deparei com um site contratado para fazer campanha para o Senhor Marcio Lacerda, o Pulsar BH! A sessão Lendas Urbanas, onde dizem desmentir as mentiras que os “loucos da internet” propagam sobre Marcio, me chamou atenção.

Fiquei perplexo! Que o Marcio mente, já sabia, agora que paga para mentir é novidade. Escolhi três matérias para mostrar as pernas curtas e coloco sites para a confirmação de veracidade. E o mais louco de tudo isso é que qualquer um que acompanhe o mínimo da cidade percebe as mentiras, ou seja, a página é produzida para pegar jovens alienados e despreparados politicamente. Uma estratégia maquiavélica sórdida e mau caráter.

Aproveito para convidar a Babi Profeta, o Evandro Emeci, o Jef Cesar Campos Baetens e a Stella Swerts para debatermos o assunto!

Acho importante vocês conhecerem melhor o que dizem. As eleições vão passar, continuaremos na mesma cidade e ficar com fama de mentiroso ou vendido não é legal.


A mentira:

A perna curta:

Um hotel com 45 metros de altura interfere na imagem de todo o complexo arquitetônico, ao contrário do que afirma o vídeo. No vídeo há inclusive a fala do Senhor Marcelo Faulhaber, carioca do PSB, que veio ser Secretário de desenvolvimento de BH e presidente do COMPUR, órgão responsável por ignorar as recomendações do IGAM e IEPHA sobre os impactos da construção.
Relatório do IGAM revela que o lençol freático fica há 7 metros e o hotel tem 3 andares subterrâneos, 9 metros, pra baixo da terra. E também não contam que o projeto o hotel já prevê a sua transformação em residencial depois de 10 anos. E para completar, o plano de limpeza da pampulha é o mesmo de 2008 e não é eficiente porque não prevê a coleta do esgoto jogado diretamente na lagoa.
Água do lençol freático sendo bombeada no lote do hotel: http://www.youtube.com/watch?v=3JQECqZhj4g
Provas da fraude para a liberação da obra: http://fora_wp.falasocial.com/?p=6188


A mentira:

A perna curta:

O que eles não dizem é que os 75 mil apartamentos construídos serão para a especulação imobiliária e que apenas 12% será para moradias populares, com previsão para a construção em 20 anos. E mais, com tantos equipamentos públicos não tem espaço para a construção sem a derrubada da mata e entupimento das nascentes. E que o Quilombo Mangueiras que lá resiste será impactado e sitiado, sendo reduzido a uma pequena área. E também não falam da previsão de obras para o trânsito, coleta de esgoto e outros serviços.




A perna curta:

A pesquisa que a matéria fez não tem a menor precisão de dados. Primeiro, a praça foi reformada em 2007 e não 2008. O Decreto proibitivo é de 29 de dezembro de 2009, ou seja, dois anos após a reforma. Este decreto proibia “eventos de qualquer natureza” na praça. Foi uma exigência da Senhora Ângela Gutierrez porque as atividades religiosas realizadas na praça atrapalhavam o funcionamento do museu, segundo ela.
Assim surgiu a Praia da Estação, movimento que contestava o decreto arbitrário. Foram dias de sol e muita luta, com PM, Guarda Municipal e até o Choque. Temos imagens, vídeos e documentos que comprovam e podem ser consultados aqui:
Durante o ano de 2010, este foi o principal movimento de enfrentamento a Lacerda, segundo pesquisa contratada pela própria PBH.
Ainda em 2010, o decreto foi mudado, não baseado no estudo da tal comissão, estudo este nunca realizado, mas na ideia do prefeito de cobrar pelo uso.
Ah e o estudo não foi realizado porque a PM, os Bombeiros, a BHTrans e outros órgãos oficiais já haviam feito o mesmo estudo em 2006, antes da reforma da praça, quando identificaram ali o lugar ideal para receber grandes eventos no centro com menor impacto na mobilidade urbana.
Com o novo decreto a praça precisa ser cercada e alugada para a realização de eventos, atitudes que impedem ou dificultam o trabalho de pequenas produtoras e artistas iniciantes.
Aqui tem todo o histórico do movimento e na coluna da direita os decretos de utilização da praça: http://pracalivrebh.wordpress.com/

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um mar de Laranjas invade BH!

“A revolução não vai passar na tv, é verdade
Sou a favor da melô do camelô, ambulante
Mas 100% antianúncio alienante
Corro e lanço um vírus no ar
Sua propaganda não vai me enganar...”  
Para ler escutando:



Manhã de sol, céu azul, limpo e temperatura agradável, 11 horas da manhã. Aos poucos a Praça da Liberdade é tomada pela cor laranja que chega de todos os lados. Do Céu Azul vem a Comunidade Dandara na luta por moradia. Também lutando por moradia chega a Comunidade Eliana Silva do Barreiro e a Comunidade Dona Helena Grego da Região Norte. Da Região Nordeste chegam os defensores da Mata do Planalto. E vem mais gente da Região Norte, é o pessoal do Bairro Mantiqueira lutando por moradia, postos de saúde e escolas prometidas e não construídas. Da Pampulha chegam as associações de moradores que lutam contra a verticalização do entorno da Lagoa. Da Região Leste chega o pessoal dos blocos de rua, que lutaram para um carnaval livre de burocracias da PBH. E não para de chegar mais gente vestido de Laranja. Da Noroeste chega o pessoal do Coqueiros e Nacional com foto do “buraco do Lacerda” uma grande cratera no meio da rua, problema que persistiu durante todo o mandado. É também da Noroeste que chega uma Senhora explicando que as casas da Vila São José não são de um projeto de moradias populares, mas foram construídas para realocar pessoas atingidas por obras.

O microfone passa de mão em mão, democraticamente, sem excluir ninguém. As falas vão se somando e novas denúncias vão surgindo. A tentativa de derrubada da Mata das Borboletas e a venda da Rua Musas na Região Centro-Sul, as obras mal planejadas e refeitas nas Avenidas Cristiano Machado e Antônio Carlos, a perseguição aos moradores de rua e artesãos nomandes... Um instante, um manifestante tem outra denúncia. “Estas obras nas avenidas que o prefeito usa em sua propaganda foram feitas com 80% dos recursos do Governo Federal e Estadual, é propaganda enganosa.”

Uma manifestante chega puxando pelo braço um Senhor tímido e sorridente. Ele fez uma marchinha para o movimento, deixa ele cantar para a bateria acompanhar, ela pede eufórica. Com o microfone em mãos e com todos atentos, o Senhor tenta perder a timidez e surge uma voz de trovão, que lembra os sambistas da velha guarda:
‎"Quem vem de lá, quem vem de cá
Sou eu guerreiro que quero passar
Laranja e preto, sinal de guerra
Fora Lacerda,seu governo é uma merda!"

Já passa das 13 horas e a multidão não para de crescer é hora de começar o desfile. O Abre Alas fica por conta das Guerreiras de Laranja e Preto, que com espada de brinquedo e capa Laranja vão abrindo a Manifestação com a grande faixa: Fora Lacerda. Segue a Ala das Ocupações, dos Movimentos Sociais, dos Sindicatos, do Copac e por fim a Ala das Bicicletas.

Um Alemão, Doutor em Manifestações Políticas, está parado atônito na esquina de João Pinheiro com Gonçalves Dias. Ele tenta entender o que se passa. Pega um dos organizadores, identificados por uma fita amarrada no braço, se apresenta e pergunta: as manifestações políticas aqui são sempre assim? Não, este é um movimento novo, tem pouco mais de um ano. Na Europa as manifestações são mais sérias, mais aguerridas, com falas fortes! É, por aqui também já foi assim, aliás, ainda é assim em outros movimentos, mas é que fazemos política com alegria, com entusiasmo, bom humor e vibração. Nosso jeito de protestar é rindo, ridicularizando quem faz política apenas pelo poder ou pelo dinheiro. Ridicularizando empresários e políticos que precisam corromper e ser corrompidos para ganhar a vida. Eu nunca vi isso em nenhum outro lugar do mundo, pode me dar o seu contato e do movimento para conversarmos mais?

E a marcha toma a avenida João Pinheiro, chega na Afonso Pena e parece crescer a cada instante. Não é uma onda Laranja, é um mar de gente. Na porta da prefeitura um momento de descanso e atenção, todos se assentam no chão. Os Movimentos de luta por moradia dão seu recado e o pessoal do Sindieletro lê um manifesto com diversos motivos para não se votar em Lacerda. É o momento para que mais gente entenda os desdobramentos da luta, entender que gritar Fora Lacerda não é apenas combater um sujeito, mas toda uma política baseada no mercantilismo da cidade, da negociata e acordos espúrios. Os manifestantes aplaudem a cada tópico lido.

A passeata segue para a Praça Sete, onde se forma uma grande ciranda, a música já é conhecida. “Oh Dandara oh Dandara oh, a nossa luta aqui vale mais que ouro em pó, oh Eliana, oh Eliana oh, a nossa luta aqui vale mais que ouro em pó, oh Dona Helena, oh Dona Helena ho, a nossa luta aqui vale mais que ouro em pó. Mais falas e outras denúncias sobre o Prefeito Mentiroso.

A Marcha desce Afonso Pena e toma a rua dos Caetés, um funk é cantando a plenos pulmões: mente, mente, ele pisca quando mente, mente, mente, ele pisca quando mente. Mais a frente à rua deságua na praia e a música muda: praia, praia, pra pra praia da estação, praia da estação. Deita no cimento, deita no cimento.

Já na Praça, depois de 5 horas de mobilização, os Laranjas vão se acomodando enquanto no carro de som novas falas vão explicando porque é importante participar do movimento. São vários os movimentos sociais irmãos que se juntam na luta: Anel, Ames, Comando Nacional de Greve dos Estudantes, Movimento dos Servidores Públicos e não Privatizados, Cspcomlutas, Luta Anti-manicomial, Cellos, Movimento dos Ciclistas, Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura, Copac, representantes dos Feirantes e da Feira Hippie, e as Brigadas Populares.

A “festa” se estendeu até as 20 horas com os manifestantes se confraternizando e comemorando a grande mobilização. Segundo a PM foram 5.000 pessoas nas ruas, alguns menos otimistas disseram 3.500. Os números ou a exatidão desses, pouco importa, o mais importante é o que nenhum meio de comunicação de massa do nosso Estado teve a coragem de noticiar: nenhuma candidatura à prefeitura de BH conseguiu reunir tantos manifestantes, tantos militantes sem precisar pagar um centavo, pelo contrário, durante a manifestação eram recolhidas doações para pagar faixas, bandeiras, adesivos e outros materiais.

Um dia, quando velhos estivermos poderemos dizer aos nossos netos: sabe, é possível ir além. Junte seus amigos numa praça pública, faça novos amigos, converse, discuta, brinque, deboche dos poderosos corruptos, aproxime, distancie, estude, compreenda, mobilize, nada deve parecer impossível de mudar. É um prazer inexplicável juntar uma multidão para gritar junto! Obrigado BH! Vivemos e vivenciamos um momento extraordinário.

sábado, 7 de julho de 2012

A cena está pronta, mas os personagens...


A montagem das chapas para concorrer à prefeitura de Belo Horizonte virou uma verdadeira barganha. Partidos mudam de lado, candidatos se apresentam e depois se retiram, alianças são formadas em absoluto desrespeito aos filiados aos partidos. Os lideres partidários em reuniões secretas decidem o futuro da cidade, alheios a quaisquer demandas da sociedade, atentos exclusivamente as barganhas eleitoreiras.

Bem, é este o cenário que assistimos na grande mídia, mas há outro cenário. Os partidos de esquerda realizaram reuniões, convenções, articulações com movimentos sociais, sindicatos e lançaram seus candidatos. Nestes partidos quem decide quem será o candidato são os filiados, nas convenções e depois de muitas discussões. Como deveria ser em todos os partidos.

Mas a diferença não termina apenas na escolha dos candidatos, a diferença é muito maior. Estes partidos, PSOL, PCB, PSTU e PCO não recebem financiamento de empresas para as suas campanhas. Para conseguir dinheiro fazem diversas ações, desde venda de camisas, botons, adesivos e outros materiais, até festas. Além disso, contam com a contribuição de cidadãos que acreditam que há uma solução para o quadro nefasto que os figurões tentam construir para a nossa capital.

As diferenças não terminam por aqui e para relacioná-las teria que escrever um livro. Mas o ponto que quero chegar é o seguinte: existe uma saída para a nossa decadente democracia. Existe uma maneira de se mudar este cenário e estamos caminhando para ela.

Cidadãos conscientes do momento político que vivemos, oriundos de todas as classes sociais e de diferentes movimentos; sindicatos, associações de bairro, coletivos, movimentos sociais, estudantis e outros, estão se engajando na luta por uma cidade realmente democrática e humana. Arrisco a dizer que BH nunca viu tanta gente interessada e aguerrida na campanha eleitoral!

E é nesta que estamos! Acompanhamos nos últimos doze meses todas as movimentações partidárias em Belo Horizonte. Conhecemos partidos, lideranças, idéias, propostas, posturas e vamos acompanhar os passos de todos os candidatos, vamos apresentar as incoerências, os oportunismos e as boas idéias.

E para quem procura um candidato, algumas dicas:
- Desvie de todos estes que trabalham com campanha financiada por grandes empresas, são eternos reféns de corruptores.
- Evite todos estes que fazem jogo de gabinete, desrespeitando seus filiados.
- E não julgue os partidos pequenos antes de conhecê-los melhor. Você vai se surpreender com ativistas engajados e uma postura diferente.

Os personagens que mais aparecem na TV não são os principais, são apenas os atores mais bem pagos. O personagem principal é você! Entre em cena!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É proibido criticar, é obrigado propor.


Participando de alguns movimentos pela cidade me deparo sempre com uma questão quando começamos a levantar os problemas: “Não podemos apenas criticar, temos que propor algo.” “A crítica pela crítica cai no vazio, temos que ser propositivos.” Estas frases e outras do tipo parecem como um consenso em diversos movimentos e comecei a pensar. Aliás, este texto aqui é pra pensar, não é uma conclusão.

Imagine que você é um cidadão que trabalha na construção civil, mora no Tony e trabalha no Belvedere. Por dia você gasta em torno de 2 horas para ir e outras 2 horas para voltar do trabalho. Você percebe que há algo errado nisso, há oito anos atrás você fazia o mesmo percurso em 1 hora, porque dobrou? Também há oito anos o preço da passagem era 1,65, agora é 2,65. Inconformado com a situação você reclama e ao seu lado o amigo retruca: “cara você só sabe reclamar!” Ou ainda, quando você tece um comentário do tipo: “essas obras da prefeitura não vão resolver nada e ainda atrapalham a nossa vida.” A resposta vem pronta: “uai, agora você é engenheiro? Já sabe que não vai resolver?” Ou ainda: “falou espertão, agora ensina aos engenheiros a fazer melhor.”

Nas redes sociais não é diferente, basta apresentar uma crítica que já vem alguém apontando: “este pessoal da esquerda só sabe criticar, fazer algo que é bom nada!” Ou ainda: “falar é fácil quero ver ir lá e fazer diferente.” Ou como prefere o nosso excelentíssimo Prefeito: “quem não está satisfeito que se candidate nas próximas eleições.” E a maioria nem para pra pensar um pouco nas críticas, quer mesmo é soluções, parece uma reação fruto da ansiedade generalizada que ronda o mundo: não quero saber dos problemas ou, já sei os problemas, quero ver as soluções.

Pois de tanto me apontarem assim acabei aprendendo sobre mobilidade urbana, gentrificação, privatização do espaço público, gestão de saúde e educação, parcerias público privadas, programas sociais assistencialistas e estruturantes, funcionalismo público, gestão da cultura, UMEI, APA, REIV, EIV, COMPUR, SUS, OP, UPA, BRT, PBH e um outro tanto de termos e siglas.

Só que há um detalhe, a complexidade de tudo isso impede um conhecimento mais profundo, é exatamente por isso que existem especialistas em cada área. Não é possível saber tudo sobre tudo. Óbvio. Mas e aquele cidadão que não sabe nada sobre nada, que só sente na pele, como ele pode criticar sem saber apontar soluções? Pela teoria de uma parte da população ele simplesmente não pode criticar, tem que agüentar calado.

Pensando sobre esta situação mudei de postura. Agora minhas críticas serão apenas críticas e me abstenho de propor algo. Sou um simples cidadão que sente a cidade na pele e não tenho conhecimento técnico suficiente para dizer como dever ser gerido o transporte público, mais sei que da forma como está não está certo. Também não entendo de engenharia, mas percebo que asfaltar uma via e 6 meses depois retirar todo o asfalto para colocar concreto é falta de planejamento e desperdício de dinheiro público. Não sei como gerir e manter uma escola ou um posto de saúde, mas sei que garantir 30% para as empresas terceirizadas que irão fazer esta tarefa não garante a qualidade do serviço prestado à população. Também sei que uma empreiteira começar a construir um hospital e depois abandonar a obra decretando falência, não é legal. Pior ainda quando se sabe que a mesma empreiteira foi uma das financiadoras da campanha do prefeito.

Eu não sei de nada, desconfio de muita coisa e não abro mão do meu direito de reclamar, de protestar, de apontar. Quem sabe estes apontamentos não ajudam os técnicos e especialistas a verem onde está o erro? 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Obrigado Vadias!

Volta e meia uma sensação toma conta de mim e me faz pensar: só daqui uns 20 anos entenderemos o que é isso, o tamanho disso e o que vai virar. É Praia, é Fora, é Ocupe BH, é Ocupe a Câmara, é Sarau Vira Lata, é Copac, é Câmara Transparente, é Nossa BH, é Levante da Juventude, é Dandara, Camilo Torres, Irmã Doroty e Eliana Silva, é Quem Luta Educa, são Movimentos Sociais, Políticos e Culturais que estão transformando esta cidade de uma maneira nunca vista. BH está se remoçando com idéias e atitudes. 

Realizada em diversas cidades do mundo, a Slud Walk ou Marcha das Vadias, surgiu no Canadá, depois que um policial, em palestra sobre violência contra a mulher, afirmou que são elas quem provocam a ação pois usam roupas insinuantes e que por isso são também responsáveis pelos estupros. Coitado, não sabia o que falava e nem imaginava o que esta fala causaria.

 Há muitos quilômetros de distância do Canadá, ali na Praça Rio Branco ou Praça da Rodoviária, no sábado a tarde um grupo de mulheres se reuniu para responder a este sujeito e muitos outros com quem convivem diariamente. Mulheres de todas as idades, cores e formas lutando contra todos os tipos de opressão e por respeito. Se no passado a luta foi por direitos, hoje elas vão além, exigem respeito. Respeito ao corpo, ao modo de se vestir, respeito a liberdade de ser mulher. Chega de opressão!

E nada mais poderia causar tanto espanto a tradicional família mineira que uma mulher de peitos de fora pela rua. Se fosse no carnaval ou num programa de TV, tudo bem. Mas na rua é inconcebível! Como se espantaram, como se assustaram! Corpos coloridos e com frases fortes. Marcados pela opressão, pela ditadura da estética, pelo machismo, pela falta de respeito. Os conservadores não alcançam, não entendem e criticam com o discurso vazio: liberdade tem limites!

Coitados, não se lembram que a tradição mineira é patriarcal, conservadora e opressora, e que por isso gera, de tempos em tempos, movimentos de contestação. Nossas lutas são locais e mundiais, e lutar pelo respeito às mulheres faz muito sentido por aqui. É preciso ter coragem, ter muita convicção e força para tirar a roupa em público. Não é fácil encarar olhares de desprezo e cobiça burra. Não é fácil encarar uma família tradicional, um patrão conservador ou um colega preconceituoso. Não é fácil lutar por questões que outros acreditam não fazerem sentido. Não é fácil trazer para o seio das montanhas o desejo da liberdade tão sonhada.

 Participei da Marcha das Vadias com uma fantasia: Coronel Antônio, representante da tradicional família, da moral e dos bons costumes. Vestido com um terno, um chapéu típico dos coronéis, bengala e um ferro de passar roupa, como símbolo do direito ao trabalho, doméstico. O terno foi decorado com várias frases machistas. As brincadeiras que surgiram no meio da marcha foram engraçadas e revelam o lado perverso do machismo: não é sério, é só de brincadeira. Mas aquela brincadeira ocorre seriamente no cotidiano de muitas mulheres e não podemos deixar que seja fato corriqueiro.

Ao final, na Praça da Liberdade, as frases foram arrancadas do terno e depois de despido escreveram com batom e tintas algumas frases em meu corpo. Em seguida era para eu falar algo interessante, algo que ilustrasse o meu apoio a luta das mulheres. Mas não consegui, a emoção impediu, só conseguia pensar em minhas antepassadas, Mãe, Avós e Tias, que já sofreram muito com preconceitos e discriminações simplesmente por serem mulheres.

 A minha voz embargou, por isso precisei escrever este texto. A Todas vocês mulheres de coragem, que se manifestaram neste sábado, o meu muito obrigado! Obrigado por terem compartilhado comigo momento tão importante e forte. Obrigado por terem me acolhido e brincado comigo. A questão é muito séria e a luta é longa.

Acredito que as próximas gerações, nossas filhas e filhos, poderão encontrar um mundo melhor, uma cidade melhor, porque vocês atuaram com coragem e determinação! Obrigado por ajudarem a mudar esta sociedade. E quando algum machão vier lhes censurar, lembrem-se: ele é passado, vocês são o futuro!

Quando uma mulher avança! Nenhum homem retrocede!